Category: Relatos

  • Badlands women’s rally

    Badlands women’s rally

    • Abril de 2024
    • 8 dias
    • 600 km
    • 12’500m de desnível positivo
    • Início : Granada (ES)
    • Fim : Almería (ES)

    Qual a melhor história para inaugurar os relatos da comunidade senão aquele de onde esta nasceu ? 

    Tudo começou com uma inscrição no Women’s Komoot Badlands Rally (atualmente Lael’s Rallies), que acabou por nos juntar (Lia e Diana) numa aventura pela Andaluzia profunda. 

    Primeiro vieram os treinos. Tínhamos cerca de 3 meses para nos prepararmos para esta travessia,  que coincidiam exatamente com os meses de Inverno. O treino possível consistiu em rolos durante a semana e, nos fins de semana em que não chovia, ir pedalar na lama. Digamos que não foi a preparação ideal para uma rota que atravessa dois desertos, mas permitiu-nos conhecer-mo-nos e compreender se podíamos ajustar os nossos ritmos pessoais para pedalar juntas durante uma semana.

    Chegado Abril, fizemo-nos à estrada em direção a Granada para nos juntarmos às 70 participantes deste evento, organizado pela Lael Wilcox, com o apoio da Komoot e dos organizadores da prova de ultraciclismo Badlands.


    Fomos recebidas na noite anterior com o briefing e um jantar no centro de Granada para conhecer e socializar com as outras participantes, que vinham dos 4 cantos do Mundo. Este momento de convívio foi um dos poucos que tivemos durante a semana, pois formaram-se grupos de pequena dimensão e diferentes ritmos e cada um seguia ao seu próprio ritmo, com mais ou menos atalhos e dormindo em alojamentos ou tendas. Nós optámos por nos manter juntas e, de vez em quando, pedalávamos com outras participantes quando nos cruzávamos. 

    O primeiro dia começou bem, com a subida da Sierra de Huétor para sair de Granada, uma longa subida de estradão em gravel champagne, onde o grupo se foi mantendo junto, até uma grande trovoada nos ter apanhado de surpresa no topo da serra. Por questões de segurança (relâmpagos em altitude podem ser perigosos), uma parte do percurso foi desaconselhada e a grande maioria das participantes acabou por dormir na aldeia em alojamentos. Nós tivemos melhor sorte, pois passada a trovoada, parámos no café a beber algo quente e a secar, onde olhámos para o mapa e decidimos continuar o percurso para uma zona onde poderia haver hipótese de bivaque. Acabámos por dormir ao quente e secar toda a nossa roupa e sapatos graças a uma “cueva” (casas de terra tradicionais da Andaluzia) onde dormimos.

    Os restantes dias foram um deslumbramento constante proporcionado por paisagens inesperadas e infinitas, que têm o dom de  nos fazer sentir pequenas no meio de tamanha imensidão. A rota atravessa várias paisagens protegidas, tais como os desertos de Gorafe e de Tabernas, a Serra de Baza e o parque natural de Cabo de Gata, tendo fim em Alméria, à beira do Mediterrâneo.

    Tínhamos um planeamento diário com uma estimativa de quilómetros, acumulado e eventuais pontos para acampar, mas acabámos por ir adaptando os nossos dias de forma a gerir a logística e o cansaço sem nos esgotarmos. Isso não quer dizer que não tenhamos passado alguma fome, algumas dificuldades em obter água potável e, para não esquecer a dureza da rota em si, alguns dias de muito acumulado em off-road constante. Fomo-nos adaptando ao longo da travessia e chegámos ao fim com um sentimento de conquista e realização pessoal.

    Num território muito marcado pela desertificação e pelo despovoamento, há histórias que nos marcaram, como o facto da presidente da junta de uma das aldeias por onde passámos nos ter acolhido com pompa e circunstância, surpresa de ver tanta malta nova a passar pela sua terra e desejosa de poder acolher uma próxima edição.

    Muitos dos trilhos não passavam de rios secos, cheios de areia ou de pedras rolantes. Também passámos por uma aldeia onde a única agua potável vinha de um camião cisterna. Estes são testemunhos de uma paisagem que um dia foi verde, mas que foi condenada pela agricultura intensiva que consome toda a água desta região. Chegadas a Almería, uma enorme barragem completamente seca e uma visão das estufas que se estendem mar adentro a perder de vista deixaram-nos sensibilizadas. Esta paisagem foi transformada pelo ser humano e isso vê-se em cada local, mesmo se poucos ficaram para o testemunhar. 

    Um final pouco social: a festa na praia anulada pois os ventos fortes não permitiam nada que se parecesse com actividade na praia, bikes embaladas em película aderente para apanhar o autocarro de volta para Granada, onde tínhamos o nosso carro estacionado para voltar a Lisboa. 

    Um sentimento de coração cheio nesta viagem plantou uma semente de esperança em criar algo que se parecesse, sensivelmente, com aquilo que tínhamos acabado de viver: inclusivo, acessível e aberto a todas as mulheres, que proporcionasse pequenas aventuras e nos permitisse usufruir das belas paisagens portuguesas da melhor forma, saindo das nossas rotinas do dia a dia.

    O Women’s Bikepacking Portugal nasceu desta ideia e, apesar de ser um projeto recente, acreditamos que pode fazer a diferença e proporcionar-nos, a todas, acesso a uma comunidade onde podemos viver e trocar experiências em torno do ciclismo de aventura.